Um estudo recém-publicado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) na revista Nature lança luz sobre uma preocupante realidade da Amazônia brasileira: as emissões de carbono na região estão sendo impulsionadas principalmente por atividades humanas, como desmatamento e queimadas, superando os impactos das mudanças climáticas globais. A pesquisa, que analisou 15 anos de medições de gás carbônico (CO₂), revela que entre 2010 e 2024, a Amazônia emitiu, em média, 1,17 bilhão de toneladas de CO₂ a mais do que conseguiu absorver.
O trabalho da pesquisadora Luciana Gatti destaca que a Amazônia, uma floresta que deveria atuar como um sumidouro de carbono, está enfrentando uma situação alarmante: suas emissões superam sua capacidade de absorção. A pesquisa identificou duas forças principais para essa mudança drástica: a ação humana, que elimina árvores e provoca queimadas, e as condições climáticas adversas, que dificultam o crescimento da floresta e sua capacidade de capturar carbono.
Gatti enfatiza que as políticas públicas voltadas para a preservação da Amazônia são essenciais. “Quem mais afeta a Amazônia não é a mudança climática global, mas a ação humana”, afirma. O estudo revela que o fogo é a maior fonte de emissões de CO₂, com queimadas emitindo em média 1,47 bilhão de toneladas por ano, um número que supera a capacidade de compensação da floresta.
A análise estatística dos dados dividiu os últimos 15 anos em três grupos, cada um marcado por um fator dominante, permitindo uma visão clara do impacto do clima e das atividades humanas. Durante os anos chuvosos, as emissões foram as mais baixas, mas ainda assim, o desmatamento e as queimadas contribuíram significativamente para a liberação de CO₂. Nos períodos de desmatamento alto e secas extremas, as emissões dispararam, evidenciando uma correlação direta entre a ação humana e o aumento da degradação ambiental.
Outro dado alarmante é que, mesmo sob condições climáticas favoráveis, o desmatamento continuou a crescer, especialmente entre 2019 e 2022, período caracterizado pela falta de fiscalização nas políticas ambientais. A pesquisa também aponta que, em anos de seca extrema, a área queimada foi 92% maior do que em anos chuvosos, e a quase totalidade desse fogo foi provocada por ações humanas.
Como resultado, a Amazônia não só perdeu sua capacidade de atuar como um sumidouro de carbono, mas também viu seu clima interno alterado, levando a uma diminuição das chuvas e um aumento da temperatura média na região. Dados apontam que a chuva anual caiu 8% nos últimos 46 anos e a temperatura média subiu 1,13 °C.
Além de ser a primeira cientista brasileira a publicar quatro artigos como autora principal na Nature, Luciana Gatti ressalta a urgência de ações mais rigorosas para combater as queimadas, que atualmente representam uma ameaça maior à floresta do que o próprio desmatamento. A mensagem é clara: a proteção da Amazônia exige não apenas a atenção ao clima, mas uma forte intervenção nas políticas públicas que visem a preservação desse ecossistema vital.
Crédito da imagem: Terra Indígena Paraná do Arauató, no Amazonas.




