sexta-feira, 06/11/2026

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Pescadores ainda enfrentam incertezas 11 anos após desastre de Mariana, enquanto comunidades indígenas se afastam da pesca no Espírito Santo

Onze anos após o rompimento da barragem em Mariana, Minas Gerais, as consequências do desastre ambiental ainda são visíveis na vida dos habitantes da bacia do Rio Doce, especialmente em Regência, distrito de Linhares,…

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Onze anos após o rompimento da barragem em Mariana, Minas Gerais, as consequências do desastre ambiental ainda são visíveis na vida dos habitantes da bacia do Rio Doce, especialmente em Regência, distrito de Linhares, Espírito Santo. O impacto da lama de rejeitos da Samarco transformou a relação de pescadores e comunidades indígenas com as águas, deixando um legado de incertezas e desafios.

Leônidas Carlos, presidente da Associação de Pescadores de Regência, reflete sobre sua vida dedicada à pesca e à maré, que lhe proporcionou o sustento para criar nove filhos. Hoje, ele se vê em um dilema: a saudade do passado é intensa, mas a confiança no retorno à antiga rotina de trabalho é inexistente. “Isso foi o maior crime ambiental, acabou com minha vida,” lamenta, expressando a dor de ver sua profissão ameaçada.

Na aldeia Piraquê-Açu, o cacique Kara’í Perú compartilha uma realidade igualmente dolorosa. Após mais de uma década sem pescar no rio, sua comunidade foi forçada a mudar seus hábitos alimentares e culturais. O peixe, antes parte integral da identidade e sustento, agora é comprado de fontes externas, uma prática que representa a perda de uma conexão ancestral com a natureza. “Quando a comunidade percebe que o rio está morrendo, nós choramos também,” desabafa, evidenciando a profundidade do impacto emocional e cultural.

A retomada da pesca profissional em um trecho do litoral próximo à foz do Rio Doce, autorizada pelo governo federal, não trouxe a segurança desejada. Pesquisas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) ainda identificam anomalias nos peixes, como deformações e tumores, alimentando a desconfiança sobre a qualidade do pescado e os riscos à saúde humana decorrentes do consumo.

A relação com o rio, que sempre foi de sustento e espiritualidade, foi severamente interrompida. Kara’í Perú e outros membros da comunidade agora se reúnem à margem do rio para orar, buscando a proteção das águas e a restauração do ecossistema. “É um canto de bênção para os rios, para os mares, para os peixes,” explica, destacando a importância dessa conexão espiritual em tempos de incerteza.

Os pescadores de Regência, como José Sabino, também vivem a frustração de ter que abandonar uma profissão que sempre fizeram parte de suas vidas. Ele agora trabalha em uma fazenda de cacau, mas a mudança de atividade traz consigo um peso emocional que vai além da simples questão financeira. “Você para de fazer o que gosta, você adoece também,” reflete, ressaltando o vazio deixado pela pesca em sua vida.

Apesar dos esforços de monitoramento e reparação por parte das empresas responsáveis e do governo, as dúvidas sobre a segurança do pescado e a qualidade das águas permanecem. A falta de dados conclusivos e a incerteza sobre os impactos à saúde reforçam o sentimento de insegurança entre pescadores e comunidades indígenas, que anseiam por respostas e uma verdadeira recuperação do Rio Doce.

A história do desastre e suas sequelas nos ensina que a recuperação ambiental é uma jornada longa e complexa, exigindo não apenas ações de reparação, mas também um compromisso profundo com a restauração da confiança e da vida que uma vez floresceu ao longo do Rio Doce.